terça-feira, 7 de setembro de 2010

VENDE-SE TUDO

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VENDE-SE TUDO


No mural do colégio da minha filha
encontrei um cartaz escrito por uma mãe,
avisando que estava vendendo tudo
o que ela tinha em casa,
pois a família voltaria a morar
nos Estados Unidos.

O cartaz dava o endereço
do bazar e o horário de atendimento.
Uma outra mãe, ao meu lado,
comentou:
- Que coisa triste ter que vender
tudo que se tem.
- Não é não, respondi,
já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e,
na hora de voltar ao Brasil,
trouxe comigo apenas umas poucas gravuras,
uns livros e uns tapetes.
O resto vendi tudo,
e por tudo entenda-se:
fogão, camas, louça, liquidificador,
sala de jantar, aparelho de som,
tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade,
meu marido anunciou o bazar
no seu local de trabalho e esperamos
sentados que alguém aparecesse.
Sentados no chão.

O sofá foi o primeiro que se foi.
Às vezes o interfone tocava
às 11 da noite e era alguém que tinha
ouvido comentar que ali estava
se vendendo uma estante.
Eu convidava pra subir e em dez minutos
negociávamos um belo desconto.

Além disso,
eu sempre dava um abridor
de vinho ou um saleiro de brinde,
e lá se iam meus móveis
e minhas bugigangas.

Um troço maluco:
estranhos entravam na minha casa
e desfalcavam o meu lar,
que a cada dia ficava mais nu,
mais sem alma.

No penúltimo dia,
ficamos só com o colchão no chão,
a geladeira e a tevê.
No último, só com o colchão,
que o zelador comprou e,
compreensivo,
topou esperar a gente ir
embora antes de buscar.
Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile
como o momento da minha vida
em que aprendi a irrelevância de
quase tudo o que é material.

Nunca mais me apeguei a nada que
não tivesse valor afetivo.

Deixei de lado o zelo excessivo
por coisas que foram feitas
apenas para se usar,
e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos,
enquanto que torna-se cada
vez mais difícil me afastar de pessoas
que são ou foram importantes,
não importa o tempo que estiveram
presentes na minha vida...

Desejo para essa mulher que está
vendendo suas coisas para voltar
aos Estados Unidos a mesma emoção
que tive na minha última noite no Chile.

Dormimos no mesmo colchão,
eu, meu marido e minha filha,
que na época tinha 2 anos de idade.
As roupas já estavam guardadas nas malas.
Fazia muito frio.

Ao acordarmos,
uma vizinha simpática nos
ofereceu o café da manhã,
já que não tínhamos nem
uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas
o que havíamos vivido,
levando as emoções todas:
nenhuma recordação foi vendida
ou entregue como brinde.

Não pagamos excesso de bagagem e chegamos
aqui com outro tipo de leveza.

... E se só possuímos na vida o que dela
pudermos levar ao partir,
é melhor refletir,
e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ!

[Martha Medeiros]

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